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O falso protagonismo e o chamado de Deus para a vida real

  • 21 de jul.
  • 4 min de leitura

Vivemos em uma época em que filmes, séries e redes sociais moldam silenciosamente nossa maneira de enxergar a vida. Sem perceber, passamos a desejar um tipo de protagonismo que a ficção constantemente nos apresenta: queremos ser o herói admirado, viver acontecimentos extraordinários, encontrar um amor perfeito, vencer todos os obstáculos e alcançar um "felizes para sempre". Essas narrativas possuem seu valor artístico, mas tornam-se perigosas quando passam a definir aquilo que esperamos da realidade.

A vida que Deus nos concede, porém, não foi criada para imitar um roteiro de cinema. A Sagrada Escritura nunca promete uma existência livre de sofrimento, repleta de reconhecimento ou marcada por constantes momentos épicos. Ao contrário, Jesus faz um convite exigente:

"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me." (Lc 9,23)

A lógica do Evangelho é diferente da lógica da ficção. Enquanto o mundo ensina que o protagonista é aquele que ocupa o centro da história, Cristo revela que o verdadeiro discípulo aprende a sair do centro para colocar Deus no centro.

São João Batista resume essa espiritualidade em uma única frase:

"É necessário que Ele cresça e que eu diminua." (Jo 3,30)

O cristão não é chamado a construir uma história em que todos o admiram; é chamado a participar da história da salvação, cujo protagonista é Deus. A nossa grande missão não é escrever um roteiro onde tudo acontece conforme nossos desejos, mas permitir que Deus escreva Sua vontade em nossa vida.

Essa verdade aparece de maneira admirável na vida da Virgem Maria. Aos olhos do mundo, sua existência parecia comum: uma jovem de uma pequena cidade, sem prestígio político ou riqueza. No entanto, justamente por sua humildade e obediência, tornou-se a criatura mais exaltada da história da humanidade.

Seu "sim" ao projeto divino mudou a história:

"Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra." (Lc 1,38)

Maria não buscou protagonismo; buscou fidelidade.

Também São José viveu escondido. Os Evangelhos não registram uma única palavra sua. Não realizou milagres públicos, não discursou às multidões, não fundou comunidades. Ainda assim, recebeu a missão extraordinária de guardar Jesus e Maria. Sua grandeza consistiu justamente em cumprir silenciosamente a vontade de Deus.

Essa é uma constante na tradição cristã: Deus realiza as maiores obras por meio daqueles que aceitam viver a santidade no cotidiano.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que todos os fiéis são chamados à santidade segundo o próprio estado de vida (cf. CIC 2013-2015). Isso significa que o sucesso de uma existência não é medido pela fama, pela intensidade das emoções ou pela quantidade de conquistas, mas pela fidelidade ao chamado de Deus.

Santa Teresinha do Menino Jesus compreendeu profundamente essa verdade. Ela nunca realizou feitos extraordinários aos olhos do mundo. Viveu escondida em um convento, realizando pequenas ações com grande amor. Ainda assim, tornou-se Doutora da Igreja e Padroeira das Missões.

Seu ensinamento pode ser resumido nesta convicção:

"A santidade consiste em fazer as coisas comuns com um amor extraordinário."

A ficção frequentemente nos faz acreditar que a felicidade depende de encontrar o parceiro perfeito, alcançar reconhecimento ou viver experiências constantemente emocionantes. O Evangelho apresenta outro caminho.

Jesus nunca prometeu ausência de sofrimento:

"No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo." (Jo 16,33)

São Paulo também ensina:

"Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus." (Rm 8,28)

Percebe-se, então, que Deus não promete uma história semelhante às narrativas românticas ou heroicas da cultura contemporânea. Ele promete algo infinitamente maior: caminhar conosco em todas as circunstâncias e transformar até mesmo a dor em caminho de santificação.

Santo Agostinho explica que o coração humano permanece inquieto enquanto procura sua felicidade nas criaturas:

"Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti." (Confissões, I,1)

Quando esperamos da vida aquilo que apenas Deus pode oferecer, inevitavelmente nos frustramos. Nenhum relacionamento humano, nenhuma carreira, nenhum sucesso e nenhuma experiência extraordinária conseguem preencher o vazio que possui dimensão eterna.

A teologia católica ensina que fomos criados para participar da própria vida de Deus (cf. 2Pd 1,4). Esse é o verdadeiro destino da existência humana. Não fomos criados para sermos protagonistas de nossa própria história, mas para sermos filhos do Pai, discípulos de Cristo e templos do Espírito Santo.

O centro da vida cristã não é o "eu", mas Cristo.

Como afirma São Paulo:

"Já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim." (Gl 2,20)

Essa talvez seja a maior diferença entre o Evangelho e a cultura contemporânea.

O mundo diz:

"Construa sua própria história."

Cristo responde:

"Segue-me."

O mundo diz:

"Você precisa ser o protagonista."

Cristo responde:

"Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos." (Mc 9,35)

O mundo promete finais perfeitos.

Cristo promete uma cruz que conduz à Ressurreição.

A verdadeira felicidade não consiste em viver uma vida cinematográfica, mas em descobrir que Deus já escreveu a mais bela das histórias: a história da salvação. Nela, Cristo é o protagonista, e nós somos convidados, pela graça, a participar de Sua missão.

Quanto antes deixarmos de buscar uma vida inspirada pela ficção e aceitarmos viver o Evangelho, mais livres seremos. Descobriremos que a santidade não acontece apenas em grandes acontecimentos, mas no trabalho diário, na fidelidade ao matrimônio, na educação dos filhos, no cuidado com os pais, na oração escondida, na perseverança diante das dificuldades e no amor oferecido em cada pequena escolha.

Porque, no fim, a maior aventura da vida não é tornar-se o herói da própria história.

É tornar-se santo na história que Deus escreveu para nós.

 
 
 

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